domingo, 24 de setembro de 2023

S.V.E.S.T. - Coagula (L'Ether du Diable)


Continuando nossa jornada pelos meandros do sombrio universo musical da banda S.V.E.S.T., depois de explorarmos o intrigante EP de 2008, "Veritas Diaboli Manet in Aeternum: Le Diable Est Ma Raison", adentramos agora em uma fase anterior de sua evolução. "Coagula - L'Ether Du Diable" é mais do que uma mera compilação de demos; é uma cápsula do tempo que nos transporta para os primeiros passos dessa entidade musical.

Nesta compilação, somos convidados a testemunhar o nascimento da visão artística que moldaria o som característico da banda. Estas demos, "Scarification of Soul" de 1998 e "Death To Macrocosm" de 1999, revelam as raízes obscuras e as sementes do pensamento criativo que floresceriam nos anos subsequentes. É um mergulho nas origens, onde a linguagem da música e as letras ainda estavam em sua forma mais crua e enigmática.

Assim, à medida que desvendamos os mistérios contidos nestas faixas, somos levados a uma jornada única de autodescoberta. É uma oportunidade rara de testemunhar a evolução de uma mente criativa e as sementes de uma expressão artística que, posteriormente, ecoaria através do tempo e do espaço. 
 
A primeira demo, "Scarification of Soul" (1998), revela uma abordagem inicial da banda ao black metal. Através de suas composições longas e elaboradas, somos imersos em um turbilhão de guitarras estridentes, bateria frenética e vocais rasgados. É uma jornada audaciosa e caótica, onde a musicalidade encontra sua expressão na dissonância e na agressividade.

Lamentavelmente, somos impedidos de penetrar nas entranhas líricas das duas primeiras faixas deste compêndio. Como o próprio artista revelou em uma entrevista, suas letras são como enigmas pessoais, metáforas obscuras cuidadosamente tecidas para esconder, em vez de revelar, sua mensagem. Assim, somos deixados à deriva, sem as bússolas verbais que nos guiariam através dos labirintos de sua mente criativa.
 
 A segunda demo, "Death to Macrocosm" (1999), mergulha ainda mais fundo na escuridão. 
As composições são repletas de riffs de guitarra rápidos e agressivos, combinados com bateria acelerada e vocais rasgados típicos do black metal. A produção lo-fi adiciona uma camada adicional de crueldade ao som, criando uma atmosfera caótica e perturbadora. 
 
A terceira faixa, intitulada "Alpha Wolf Anger", desenha a imagem de uma besta sem rosto, cujos uivos ressoam como um eco de insanidade. Sua carne é uma encarnação de sujeira e feiura, uma representação distorcida da natureza. Através de uma dança macabra, essa criatura infla a escuridão, criando uma sinistra sinfonia que é ao mesmo tempo cântico e maldição. Seus olhos, como brasas ardentes de ódio, brilham intensamente, sinalizando a presença do próprio Mal.

"Death to Macrocosm", a quarta faixa, nos transporta para um estado de morte mística. Aqui, nos damos conta de que estamos imersos em uma morte que transcende o cosmos. Este é um lugar onde a luz não tem lugar, apenas o vazio e o desconhecido. É um mergulho profundo no abismo da existência, onde a morte não é apenas um ato, mas um pensamento que corrói a alma. É uma jornada obscura em direção ao desconhecido, uma transformação espiritual no altar da própria essência.

Finalmente, a quinta faixa, ''Evil War (The End Of Men By Men)'', apresenta uma marcha infernal. Legiões se reúnem sob o estandarte de vontades sombrias, marchando através de um infindável inverno. Nesta guerra maligna, o fogo atômico se ergue para apagar o dia e a noite. É uma destruição cega, onde a paisagem em chamas testemunha o fim da substância mortal. A orquestra das armas de morte canta o testamento da vida. Neste cenário, proclama-se o fim da humanidade pelas mãos dela mesma. É o sopro do mal que se manifesta.
 
Em resumo, "Coagula (L'Ether du Diable)" é uma obra que desafia normas estabelecidas e conduz os ouvintes por uma exploração profunda da complexidade da mente humana. Esta compilação merece apreço por parte daqueles que buscam as profundezas mais intrigantes do black metal, uma experiência musical que desperta a imaginação e provoca reflexões intensas.


 

sábado, 23 de setembro de 2023

S.V.E.S.T. - Veritas Diaboli Manet in Aeternum: Le Diable Est Ma Raison


Nas profundezas do cenário do black metal francês, encontra-se uma obra de arte obscura e hipnótica conhecida como "Veritas Diaboli Manet in Aeternum: Le Diable Est Ma Raison". Este é um EP lançado em 2008 pela banda S.V.E.S.T., que desempenhou um papel crucial no desenvolvimento do black metal na França. Com apenas três faixas, este álbum é uma experiência musical intensa e transcendental.

Desde a primeira faixa, intitulada "Et La Lumière Fut, Comme Un Coup De Scalpel," somos mergulhados em uma atmosfera densa e sinistra. Os acordes iniciais cortam como um bisturi, abrindo caminho para um turbilhão de riffs e ritmos hipnóticos que se desenrolam ao longo de mais de dez minutos.
A produção lo-fi adiciona uma camada de crueldade à música, como se estivéssemos testemunhando um ritual primitivo. A bateria martela incessantemente, criando um pulso frenético que nos envolve. Os vocais, raspados e angustiados, ecoam como lamentos de almas perdidas. No entanto, por baixo dessa cacofonia, há uma melodia sinistra e intrincada que se desdobra, revelando uma beleza estranha e perturbadora.
Nesta faixa, somos confrontados com a ideia de que tudo o que existe já foi realizado no provável, uma visão que desafia o tempo e a causalidade. O Diabo é apresentado como o "Grande équarrisseur", aquele que desmembra a matéria e cria o Todo. A música transmite a sensação de uma explosão de raiva cósmica, e a guitarra, embora distorcida, cria melodias que ecoam por entre a estática. O Diabo é retratado como a interface entre a causa e o efeito, o que desafia a dualidade. Esta faixa reflete a entropia do Diabo como uma força universal que governa a ação e a evolução do universo.
 
"Le Diable Est Ma Raison" continua essa jornada sombria, com sua duração de oito minutos parecendo uma eternidade. A faixa mantém a mesma intensidade, mas introduz uma sensação de desespero existencial. A guitarra emite riffs tortuosos, e a bateria executa blast beats que evocam uma sensação de caos controlado. Os vocais, novamente, ecoam com uma aura de angústia e questionamento. A música é uma ode ao Diabo, uma celebração do obscuro e do desconhecido. 
Nas letras, somos levados a observar a humanidade, que muitas vezes idolatra deuses e demônios sem entender o vazio que existe por trás da adoração. O Diabo é retratado como o arquiteto do ceticismo, aquele que quebra a ilusão da fé cega. Ele é descrito como uma unidade prismática da realidade. A letra questiona se o Diabo tem um propósito ou se ele é uma força primordial sem visão. A arrogância humana é desafiada ao atribuir intenções ao Diabo, que, na verdade, é uma força transcendental que não busca a atenção dos mortais.
 
"Veritas Diaboli Manet in Aeternum" 
Esta faixa apresenta apenas uma expressão direta em latim: Veritas Diaboli manet in aeternum. Diabolis vobiscum et cum spirita tuo. "A verdade do Diabo permanece para a eternidade. Diabo esteja convosco e com vosso espírito." É como uma invocação final, enfatizando a permanência da verdade satânica, independentemente de qualquer outro conceito religioso.
Nesta última faixa, a sonoridade assume uma qualidade ritualística e quase litúrgica. Os cânticos profanos e guturais evocam uma sensação de invocação, como se estivéssemos testemunhando um ritual secreto em homenagem ao desconhecido. A música aqui inicialmente é mais lenta e arrastada, criando um ambiente de tensão. O uso do latim nas letras reforça a atmosfera ritualística e misteriosa. À medida que a faixa avança, o clima sinistro se intensifica. Sons estranhos e inquietantes se entrelaçam com guitarras distorcidas e pesadas, criando uma paisagem sonora que é ao mesmo tempo perturbadora e hipnótica. 
Ao longo de seus quatro minutos, "Veritas Diaboli Manet in Aeternum" nos envolve em uma atmosfera de terror cósmico, como se estivéssemos prestes a enfrentar forças além do nosso entendimento. É uma experiência auditiva que desafia convenções e deixa uma impressão duradoura de que o desconhecido, o sinistro e o misterioso estão sempre à espreita nas sombras da existência humana.
 
No geral, a sonoridade deste EP é um testemunho da abordagem radical e desafiadora do black metal. É uma experiência auditiva que empurra os limites da música extrema, explorando a dualidade entre a brutalidade e a complexidade. A produção lo-fi acrescenta uma camada de autenticidade e crueldade à música, enquanto
as letras são um mergulho profundo na filosofia satânica e na relação complexa entre o homem e suas crenças. Elas desafiam a ideia tradicional do bem e do mal e convidam o ouvinte a contemplar o desconhecido. S.V.E.S.T. utiliza uma linguagem poética e obscura para explorar esses temas, criando uma atmosfera única e sombria que permeia todo o EP.
Em resumo, "Veritas Diaboli Manet in Aeternum: Le Diable Est Ma Raison" é uma obra-prima do black metal francês, uma exploração das profundezas do satanismo e da psique humana. É uma dança com o diabo na luz e nas trevas, uma jornada para além dos limites da compreensão humana. É uma experiência musical que transcende o gênero e permanece como uma obra duradoura da arte obscura.